domingo, 24 de junho de 2007

Beppo

O gato branco e solitário vê-se
nessa lúcida lua de algum espelho
e não pode saber que tal brancura
e esses nunca vistos olhos de ouro
são, afinal, a sua própria imagem.
Quem lhe dirá que o outro que o observa
é apenas um sonho desse espelho?
Eu penso que esses gatos harmoniosos,
o do mais quente sangue e o de vidro,
são simulacros que concede ao tempo
um arquétipo eterno. Assim afirma,
sombra também, Plotino nas Enéadas.
De que Adão anterior ao paraíso
e de que divindade indecifrável
somos nós, homens, um quebrado espelho?

Jorge Luis Borges
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

1 comentário:

Luís Graça disse...

Como o ritmo de Borges é necessariamente diferente do de Beaudelaire, repare-se como esta tradução põe em evidência toda a coerência de um espaço das palavras. É tudo pausado. Os compassos batem todos certo.
Não se perde a música como no poema de Beaudelaire, que obedece formalmente a outro tipo de regras.