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terça-feira, 15 de junho de 2010

No meu memorando vejo-me perante uma data que foi durante algum tempo o refúgio das minhas notas passageiras, do dia-a-dia, desde a adopção do Querido Gato até ao enlace com minha mulher Simone.
A sua dedicação à raça felina continua em grande neste 3º aniversário de existência do seu blogue.
Desejo fervorosamente que assim continue.
Cá em casa vamos prestar-lhe uma simples homenagem, mas para nós muito significativa.
Abrimos uma garrafa de "Asti Spumante" e brindaremos ao seu blogue, ao Querido Gato e, de olhos nos olhos, os meus nos da Simone e os da Simone nos meus, sorriremos e ouviremos o tlim-tlim cristalino e friccionado com palavras nossas em voz alta; "Amour, santé, beaucoup de folies."
lp

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Convém recordar - porque se me dá na real gana - que precisamente neste dia 23 de Dezembro do ano passado principiava a preparar a mesa onde eu e o meu Querido Gato iríamos consoar.
Este ano é diferente. A mesa é a mesma, a toalha vermelha também, mas no lugar do gato vai estar Simone, minha mulher, minha amante, minha amiga. A seu lado o pequeno berço onde agora dorme o nosso filho de três meses. Na árvore de Natal estão prendinhas para ele.
O Querido Gato, que no ano passado recebeu um guizo, foi esquecido.
A vida dum gato é assim.
lp

sábado, 21 de novembro de 2009

Ontem encontrei o meu Querido Gato com febre alta, falta de apetite, diarreia, dores no corpo (não se lhe podia tocar).
Telefonei para a linha 24 e esclareceram-me não ser de todo impossível a Gripe atacar os felinos... mas inclinaram-se para uma intoxicação alimentar.
E, de facto (sem querer fazer juízos precipitados), o "puto" do rés-do-chão, disfarçado de índio de Guatemala, passou o dia a mascar chicletes de látex ordinário (julgo que também usado para preservativos) compradas na loja do chinês.
Tenho uma ligeira impressão que qualquer dia, com face oculta, mato o puto.
lp

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Para quem já tinhas saudades, chegaram notícias do senhor lp:

O Querido Gato continua a gozar dos rendimentos. A minha vida com Simone está soberba. A bruxa do 2º andar foi de novo dentro. A vizinha do rés do chão passa a vida a dar sopapos no puto, aos fins-de-semana. A gorda gata da cartomante já engravidou de novo mas, desta vez, não foi o Querido Gato
lp

sexta-feira, 27 de março de 2009

A sensação de conforto foi miraculosa. Aconteceu-nos aquele momento que ainda não tinha sido descoberto, tão lânguido, tão dado, tão recebido; tanta ternura numa posse plena de alegria, plena de juventude; os corações de ambos rejuvenesceram, rejubilaram, saltaram para fora dos peitos para se unirem ainda mais e, nessa posse eterna, quando a água já arrefecia, descobrimos que o amor é a mais bela criação na Natureza.
— Nunca amei assim, lp
— Nunca amei assim, Simone.
E selámos estas palavras com um beijo nos lábios febris.
Depois, minha mulher, ainda naquela preguiça desfalecida que vale oiro para um homem, disse-me:
— Tens que ensinar o teu gato a ser mais discreto.
Olhei para o lado. E ele lá estava, o Querido Gato, iluminado pelas velas, sentado no banco, lambendo a boca como que a saborear o nosso doce beijo.
E agora, amigos, chegou a altura de pôr ponto final a estas crónicas. A intimidade de um lar é para se viver de portas adentro.
lp

FIM

quinta-feira, 26 de março de 2009

A tartaruga apareceu numa velha caixa de cartão que se destinava ao lixo.
E foi o Querido Gato, com a sua patinha direita, que destapou a caixa, eriçando o pelo negro ao ver que dentro dela reluziam uns olhinhos pequenos, num pescoço alongado que saía duma carapaça rija como pedra.
Simone ficou radiante e agradeceu-lhe.
— Sabes — disse-lhe — os dinossauros desapareceram. As tartarugas ainda existem.
Está a casa pronta. Arrumada. Bonita. Predominam os tons castanhos, amarelos e brancos. Sobretudo, brancos. O Branco é o conjunto de todas as cores. De todas as cores do nosso enlevo e, também, a cor dos lençóis de linho da nossa cama de casal.
— lp
— Diz querida mulherzinha.
— Sou feliz!
Então, enchemos a banheira de água quentinha que criou uma espuma branca como a neve. Acendemos muitas velas, não sei quantas, juro-vos, e apagámos a luz eléctrica.
lp

quarta-feira, 25 de março de 2009

Já se passou um mês meus leitores, desde a última crónica.
Recebemos antes de ontem, na nossa nova habitação, a vinda dos haveres que ambos tínhamos nas nossas casas. Foi um mês profícuo; já não nos conhecemos de cor.
E, para lá de tudo, temos uma certeza, se na vida pode haver certezas; Amamo-nos.
Gosto do André — é uma criança bonita e educada. E, sabem, estou a aprender a ser pai.
Tenho, como já vos disse, 48 anos… mas nunca é tarde para se ser pai.
Simone está cansada pelas tarefas de "dona de casa"; pediu ao médico veterinário (que, enfim, já se assume como homossexual) uma semana de férias antecipadas para arrumar, embalar e desembalar, dividir, ajuizar, prendar, desfazer-se de coisas velhas, e cruzar os braços ao fim do dia, numa apreciação geral ao seu trabalho.
O Querido Gato não pôs entraves ao local que lhe foi destinado para as suas coisas.
O que preocupa minha mulher, entristece-a até, é não ter encontrado a tartaruga.
— É estranho, sabes! Já era tempo de deixar a hibernação — disse-me ao fim do dia.
lp

terça-feira, 24 de março de 2009

Estava de acordo com Simone; aliás tenho que me habituar a estar de acordo com minha mulher; Campolide não servia para nós dois; bairro velho, prédio velho, vizinhos velhos, enfim!
E agora, com uma imagem desvirtuada, como me livraria eu do falatório? — "Lá vem ele, o lp, o do gato preto que comeu a gata branca da bruxa".
Também a casa de Simone à Rua do Capelão era pequena para um casal com um filho e um gato.
Então, numa destas tardes de Verão antecipado, pensámos procurar um T3, num bairro sem reboliço; ela alugaria a estrangeiros o seu andar à Rua do Capelão (com o atractivo anúncio "A Rua de Severa") ou então punha-o mesmo à venda. Eu deixaria Campolide da maneira que mais me conviesse.
Fizémos contas; somámos várias vezes as parcelas do deve e do haver.
A Clínica não pagava mal. Eu, trabalhando para mais uma editora (muito possível dado o número cada vez maior de títulos que todos os meses aparecem nos escaparates), podia arrecadar mais alguns euros e, tudo junto, enfim, sobrava dinheiro para férias em Porto Covo.
lp

segunda-feira, 23 de março de 2009

Não esperou muito. Com velocidade felina em plena selva, sem saber porque artes mágicas se lhe oferecia um manjar inusitado àquela hora da noite, o meu jovem gato saltou para cima da velha gata e mordeu-a valentemente no pescoço.
Foi o que conseguiu ver. Nada mais.
— Depois voltei para baixo, Sr. lp, com o gatinho ao colo. Fechei a sua porta com duas voltas, como pede a minha avó...
— Fala mais baixo, olha a vizinhança — pedi-lhe — e não quero ouvir mais nada.
De facto, os vizinhos em redor, alertados pela alteração monótona da Calçada que de Mestres sempre fora, riam-se da cena que vos conto.
— Bom! Desanda — ordenei ao puto.
Tomei a decisão que se impunha para evitar males maiores; reentrei e dirigi-me à matrona.
— Pois que seja assim. O que está feito, feito está! Mas que provas tem a senhora de ter sido o meu gato a fazer o favorzinho?
— Tenho todas as provas, seu canalha. As cartas não mentem e, na vigilante serpente do candeeiro, há pelos de gato preto...
— Olhe, acabou-se! Compro-lhe a ninhada inteira! — e despedi-me.
A bruxa ficou com os olhos a brilhar.
lp

domingo, 22 de março de 2009

Quando, então, a avó lhe pediu para ir ao 1º andar ver do meu gato (ela e a matrona estavam presas a uma fase empolgante da novela que seguiam, choravam e riam), naquela noite em que eu e Simone jantávamos no Conventual, naquela noite em que choveu picaretas, fiquei sem chapéu de chuva e rompi a gabardina na porta dum táxi, ele, Nélinho, tinha tomado a chave de casa da cartomante (que, por hábito, a deixava na mesinha da entrada, logo ali à mão de semear) para saber como se comportava o meu "gatinho" em frente da pachorrenta gata da bruxa.
Entrou em minha casa, pegou no Querido Gato e, rápido, subiu ao segundo andar.
Quase esbarrava com uma serpente de ferro forjado que se enrolava num candeeiro de pé alto que a vizinha tinha logo à entrada como símbolo do pecado original.
Na cozinha a gata dormitava, mas logo acordou com o ruído.
Pôs o Querido Gato no chão ao lado da bichana, e sentou-se num banco, esperando.
lp

sábado, 21 de março de 2009

— Posso falar com o seu neto, a sós, na rua? — perguntei à vizinha do R/C.
— Com certeza Sr. lp (e em voz alta) Nélinho! vem cá...
E o miúdo apareceu não sem antes ouvir outra chamada.
Simone, entrementes, tinha-me dito:
— Vou andando lp. Vou pela ama a buscar o meu filho — deu-me um beijo e arrancou.
Na rua, na rua onde nasci, onde vi crescer num terreno bravio as "casas económicas" do Estado Novo, onde me vejo ainda de calção encostado ao Aqueduto, onde ainda me lembro de ouvir o apito do comboio vindo do túnel, nessa rua morna com uma carvoaria taberna, digo ao puto com ar severo:
— Vais contar a verdade, ouviste bem? Se o não fizeres queixo-me de ti a teu pai e falo com o director da escola; andas um mês inteiro com orelhas de burro.
— Eu nunca tinha visto Sr. lp… nunca tinha visto — disse o Nélinho a fingir que chorava.
— Conta-me o que fizeste naquela noite. Eu já sei tudo, mas exijo que te confesses.
E o puto confessou.
lp

sexta-feira, 20 de março de 2009

E, de facto, por algumas janelas, os vizinhos em redor tentavam perscrutar.
— E tu queres que eu viva contigo num prédio com uma bruxa histérica? — disse Simone.
— Aqui há tramóia — interrompi — A matrona está fora do juízo. Como pode ter sido o meu Querido Gato? Há tramóia. Cheira-me a tramóia.
Ouvimos mais um grito da avó para o neto "Então, a água e o pano, Nélinho?!".
— E não só a bruxa — continuou Simone — Ainda temos que aturar o miúdo.
OH! SIMONE! que inspiradora palavra acabaste de pronunciar (disse eu para os meus botões).
Abri a porta da rua e entrei; a cartomante bebia, enfim, o seu copo de água e D. Leopoldina passava-lhe pelo pescoço um pano húmido.
O puto, quando me topou, escapuliu para dentro de casa.
lp

quinta-feira, 19 de março de 2009

D. Leopoldina pediu ao neto (que estranhamente estava em casa da avó a uma quinta- feira).
— Vai buscar água Nélinho. E traz também um pano molhado.
A língua viperina da matrona voltou emanada de grande força.
— Minha querida gatinha! Oito anos, oito anos sem saber o que era um gato. E agora? O que faço com a ninhada? Eu mato o gato, ai! mato, mato! Eu mato o gato! Malandro. Estafermo. Aperto-lhe as goelas…a Senhora ao Pé da Cruz me perdoe...
— Deixe D. Leonilde, não se preocupe — disse D. Leopoldina querendo deitar água na fervura.
— Eu chamo a polícia! vou chamar, vou chamar a polícia! — dizia a matrona aos soluços — já me falta o ar. Ai! de mim, ai! da minha virgem gatinha…
D. Leopoldina para o puto, em forte grito: — Então Nélinho, essa água?
Voltei a olhar para Simone. Estava branca pelo dramalhão.
Dei-lhe um beijo na face pálida e viemos para a rua.
Os gritos da matrona tinham acordado a Calçada dos Mestres.
lp

quarta-feira, 18 de março de 2009

"… o desgraçado, o maltrapilho, não tem onde cair morto este gajo. Bem me diziam as cartas que havia gato!".
Olhei para Simone que se segurou ao meu braço pelo susto da investida.
Eu ainda perguntei à matrona.
— Mas que se passa?
— Que se passa? Seu canalha! Pois não é seu o cabrão daquele gato preto? Não é seu, hem? Tem coragem de dizer que não é seu?
— E depois? Que há? — perguntei tentando a custo manter a calma.
A matrona principiou a chorar.
— Minha pobre gatinha, coitadinha, coitadinha! Com oito anos e virgenzinha, não sabia nada, coitadinha. Ai! a Senhora ao Pé da Cruz me acuda deste demónio. Agora grávida, grávida do preto. Está grávida, seu malandro, percebeu?! Grávida. Ai a minha gatinha, a minha gatinha...
E deu-lhe um tremelique...
lp

terça-feira, 17 de março de 2009

Com o dinheiro que lhe coube depois do litigioso divórcio resolvido, Simone decidiu-se por comprar um andar num restaurado edifício à Rua do Capelão, no Bairro da Mouraria.
A rua, carregadinha de simbolismo fadista — basta dizer que três passos mais acima viveu Severa — tem um inconveniente; a atracção dum bairro desenfreadamente procurado por turistas que à noite enchem tabernas e bares, e cantam fado encharcados de cerveja.
A minha Calçada dos Mestres é o silêncio na sua máxima perfeição. E, por isso, achamos que o nosso futuro em comum passa por Simone alugar o andar onde vive com o filho e transferir-se para Campolide, com as suas armas e bagagens.
Com este propósito desenhamos vários estudos, configurando as minhas 4 divisões ao gosto requintado da minha futura mulher; e ontem, depois de termos jantado numa tasquinha da Mouraria, resolvemos dar um pulo a minha casa para conferir definitivamente a medida do quarto que se destina ao André.
Entrámos no patamar.
E de repente, como inesperado relâmpago, a matrona sai de casa de D. Leopoldina e, aos gritos histéricos, aponta-me o dedo.
"Lá vem ele, o malandro, o canalha, o sem vergonha…"
lp

segunda-feira, 16 de março de 2009

Não foi muito pacífico o divórcio de Simone com o pai de seu filho André; um tal Alvim Oliveira, com uma poderosa carteira de seguros e a responsabilidade de Segundo Vigilante numa Loja Maçónica.
Em causa, segundo a minha querida Simone me foi confidenciando, estavam os bens patrimoniais que ambos possuíam, pois no assento de casamento lia-se "regime de comunhão de bens".
Como bom Maçon, Alvim levava tudo à letra dos rígidos deveres e, se necessário, utilizava régua e esquadro no enquadramento da liberdade, democracia e igualdade.
Um dos problemas mais complicados — depois de resolvido o da partilha do colchão da cama do casal onde, segundo ambos sabiam, tinha acontecido a noite da concepção sem a ajuda de S. Gabriel — foi a divisão da paternidade; André era dos dois e, depois de diversas altercações o Juiz, ironizando, alvitrou pôr em prática a célebre lenda de Salomão…
lp

quarta-feira, 11 de março de 2009

Tive dificuldade em adormecer.
O sonho comanda a vida, diz a canção...
E deixei-me levar pela alegria de me arrumar "definitivamente" na minha vida. Simone era perfeita. Parecia-me perfeita. E, neste conceito de perfeição, não deixei de olhar o Querido Gato que se preparava para se enroscar aos pés da minha cama.
Como pode um gato ter tão grande papel na vida de uma pessoa? Devo-lhe a ele este conhecimento ainda verde, decerto que ainda verde, mas calma lp; Roma e Pavia não se fizerem num dia, mas a caminhada não pode ser longa; deixar amadurecer o fruto da árvore? deixar este relacionamento cair na monotonia? não lp! Olha para ti e avalia os teus predicados, condicionais, imperfeitos, passivos, complementos directos e indirectos, e divide uma oração; Avé Maria… cheia de graça… o senhor…
Acordei com um barulho na escada. Eram uma 10 horas da matina.
A matrona voltava da Judite.
lp

terça-feira, 10 de março de 2009

O prédio inteiro, entretanto, tinha acordado.
Um ou outro vizinho abriu a porta para dar fé.
E no rés-do-chão, a simpática D. Leopoldina que de vez em vez olha pelo Querido Gato, esperava a matrona.
— São bolinhos de mel, pode ter fome durante a noite — ouvimos.
— Obrigada minha querida. Logo já cá estou para ver a novela!
Eu e Simone fomos até à janela, e afastámos a cortina. Continuava a cair uma chuvinha, a tal que molha tolos; e os dois polícias abriram uma porta do carro para entrar a matrona, a bagageira onde deixaram caixas, e arrancaram rua abaixo.
— Desculpa, meu amor. Isto não estava no programa… — disse-lhe.
— Vou andando lp. Já é tão tarde!… Vê bem às horas a que vou buscar o miúdo à ama.
— Vai sim! Vai! Tens razão, já é tarde… mas que queres, o tempo voa!
E, já na porta, pedi-lhe mais um beijo. Deu-mo e abraçou-me.
— Diz-me que me amas! — disse-lhe ao ouvido.
— Amanhã! Abre-me a porta. Dorme bem.
Atravessou a rua como pequenina gazela, meteu-se no carro e arrancou.
Voltei-me para o Querido Gato e, com autoridade, avisei-o:
— Temos que conversar. Não voltas a pôr a pata em ramo verde, ouviste bem?
lp

segunda-feira, 9 de março de 2009

Os dois guardas subiram os degraus e bateram a uma das portas.
— Que querem? — ouve-se. Era a voz da matrona.
— D. Leonilde? — perguntou outra voz, ainda mais boçal.
— Que querem? — repetiu a tal.
— Que nos abra a porta. Temos aqui a ordem para a levarmos e revistarmos a casa.
— Outra vez? A estas horas?! Cambada! Já uma pessoa não pode viver com decência — disse ela com voz altercada.
A vidente, a cartomante, a esotérica, a bruxa, tudo quer dizer o mesmo, eu sei... a matrona Leonilde abriu a porta, e a Judite entrou.
— Lá vão as minhas cartinhas, os meus búzios, as pedrinhas da praia que tanto custam a apanhar, a lâmpada encarnada, o mocho embalsamado…
— A senhora também vai, descanse! — disse um.
— Vou, mas volto, essa agora! Já não se pode trabalhar honradamente neste país. Da outra vez também foi assim. Entrei e saí.
— Já tem idade para ter juízo, minha senhora — disse o outro.
— Juízo? Deixem-me rir. Ah! Ah! Basta dizer lá na polícia os nomes de homens e senhoras que me pedem conselhos. Ainda ontem esteve aqui a mãe dum distinto deputado a querer saber do futuro dele…
lp

domingo, 8 de março de 2009

Mas o Querido Gato não nos deixava. (Vou pensar muito seriamente em alterar o seu nome de registo para outro mais de harmonia com a atitude que assumiu naquele tão lindo serão; "amigo-da-onça").
Simone, entretanto, reparou ser quase meia-noite; dá-me um beijo longo, um beijo de despedida, duma despedida de "até já".
— Vamos pensar nisto, sim? — disse-me — Vamos ser adultos e reflectir sobre os nossos sentimentos. Eu gosto de ti. Pareces um homem sério, meigo e incapaz de me seres infiel — esta última palavra foi dita com um ligeiro sorriso.
De repente aconteceu um reboliço no patamar da entrada; vozes de homens, falando alto, descuidados quanto ao horário tardio.
Sentem-se passos a subir os degraus. O meu gato encrespou o lindo pelo.
A querida Simone, soergueu-se do sofá, compôs a blusa desalinhada e vestiu o casaquinho.
Depois duas valentes pancadas na minha porta.
— Aqui é o 2.º? — perguntou uma voz boçal, de homem.
— Quantos lances de escada subiu o Sr.? — retorqui visivelmente indisposto.
— Não se fala assim com a autoridade, hem?! — e com voz mais alta disse para baixo — Sobe pá! É no andar de cima!
Era a polícia.
lp