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domingo, 8 de março de 2009

Lágrimas soltas correram-lhe pela face. (Que eu sorvi numa ânsia de frescura).
Gianni Schicchi tinha chegado ao fim.
O Querido Gato apareceu — deveria vir dos lavabos — e de novo soltou para as pernas de Simone. Desta vez dei-lhe uma palmada pela inoportuna atitude. O gato miou e afastou-se.
Com a velha vela vermelha de chama já pálida, abraçámo-nos num conforto supremo e ouvimos respirações ofegantes que decerto eram nossas. Depois, num beijo suave e terno, que ambos procurámos na descoberta de sentimentos adormecidos, fugimos para outro espaço celestial, carregadinho de estrelas de brilho diamantino.
Na semi-obscuridade da sala sentimos ambos que vivíamos um momento que perduraria para sempre. As nossas mãos, de gestos lentos e meigos, procuravam-nos numa descoberta de iniciação.
lp

sexta-feira, 6 de março de 2009

— Quero amá-la nos bons ou maus momentos. Quero ser para si o amigo, o constante apaixonado, o marido e companheiro de uma vida… pois se há pessoas que passam toda uma vida juntas, porque não podemos nós os dois tentar fazê-lo? Quero ver em si, todos os dias, um sorriso diferente, e uma flor nesses cabelos…
— E podemos construir um futuro com esse utopismo? — disse Simone.
— Não lhe chame isso. A realidade é o dia-a-dia, é a perseverança, a angústia pela espera de nós, a alegria do encontro, o prazer da companhia, o compartilhar das nossas coisas, do nosso lar, a confiança nos nossos comuns sentimentos. Eu estou pronto, Simone, a dar-lhe parte de mim, parte da minha vida, ou mesmo a vida inteira se a desejar.
Nesse momento deu-se um clarão que nunca mais esquecerei.
Simone encostou os seus lábios aos meus e disse-me num sussurro.
— Não me diga mais nada. Não me faça sofrer.
Estava mais bonita do que nunca.
lp

quinta-feira, 5 de março de 2009

— Estamos bem um para o outro, Simone. Este seu amigo levanta-se cedo, revê provas tipográfica de alguns bons escritores, não tem vícios, nem sequer fuma, já fez 48 anos de idade mas não sabe em que lugar deixou a juventude; olha para o passado e não encontra nada... — continuei procurando exprimir-me com as melhores palavras — ...Tive duas relações. Em ambas não sabia o que andava a fazer com elas. Um desacerto total. Creio que o amor entre dois seres pode flutuar eternamente num manto azul e, quando a vi pela primeira vez e encontrei os seus olhos, acreditei que os dois podíamos fazer da vida qualquer coisa de belo.
— Mas não nos conhecemos lp! — repetiu Simone com uma voz muito bonita.
Pus a minha mão na dela.
— Temos tempo para isso, minha amiga. Temos tempo.
lp

quarta-feira, 4 de março de 2009

Tirei delicadamente o gato das pernas de Simone.
— lp, não deve tratar o seu gato como quem trata uma criança de colo.
Mas, quando se principiou a ouvir "O mio babbino caro", perguntei-lhe:
— Posso chegar-me um pouco mais para si? Esta melodia é tão linda…
E ouvimos a ária ao ritmo dos nossos corações.
— Gosto muito de si, Simone. Admiro-a sem saber porquê, mas gosto muito de si.
Este "sem saber porquê" foi desastroso, totalmente surrealista.
— Não nos conhecemos lp. O seu gato tem sido a nossa correspondência…
— Sim, correspondência de amor — interrompi com decisão.
— De amor!? Vem falar-me de amor?! Sou uma mulher divorciada, tenho um filho com 3 anos que nunca pude amamentar, trabalho bastante para poder satisfazer às minhas necessidades, o meu ex-marido, um inútil, ignora o filho. Enfim! quer amar uma mulher com este cartão de identidade?
lp

terça-feira, 3 de março de 2009

O café foi um bálsamo. Saboreamo-lo devagar no silêncio dos nossos pensamentos.
Ofereci-lhe mais coisas (bolachinhas, Mon Chéri, rebuçados de mentol). A tudo disse que não.
Depois levantou-se e foi até à janela. Afastou um pouco a cortina.
— Chove. Pouco, mas chove! — acabou por dizer
Segui-lhe os mesmos passos e, pelo caminho, tive a infeliz ideia de ligar a televisão.
— Ah! isso não — implorou.
Arrependi-me de imediato e propus-lhe vermos a ópera que me ofereceu. Coloquei o DVD no leitor.
— Como sei que gosta de ópera! — disse Simone com uma voz de circunstância.
Sentámo-nos no sofá.
O Querido Gato teve um desplante temerário. Saltou para as pernas d'ela.
— Vamos — disse-lhe eu — deixa a senhora em paz.
Só nessa altura reparei que vinha de jeans.
Ela olhou-me e sorriu.
lp

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Acendi a lamparina da máquina de café…
E recebemos (eu e o meu gato) as lembranças com que ela nos presenteou. Para o Querido Gato uma bonita embalagem de biscoitos com um opulento laço azul e, para mim, a ópera Gianni Schicchi.
Não resisti em levantar-me, contornar a mesa, e encostar os meus lábios aos dela.
A água do café, já a ferver, subia para o balão de vidro...
— Vamos ao cafézinho — foram as suas primeiras palavras depois do silêncio que emoldurou uma ternura mútua.
Ambos sabíamos que se nos revelavam apaixonados sentimentos.
lp

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Que bem me sinto a escrever a recordação daquele jantar de sábado passado. Agora quase que me humedecem os olhos ao ter visto em Simone a minha mulher, a minha amante, a amiga e irmã, a Santa dum altar, a deusa de Olimpo a quem dedicaria as minhas memórias do passado, a ternura do presente, e as angústias do futuro.
— Senhores, que maravilha de assado — disse a certa altura a minha querida visita.
Olhei-a procurando-a por entre os cravos. E foi ela exactamente que afastou a jarra um pouco mais para o lado para que nada nos separasse; e, assim, na cálida claridade da vela que se reflectia no espelho claro e belo dos seus olhos, balbuciei palavras sem nexo e peguei no copo para outro brinde, este só para ela; eu nada mais queria depois daquele momento tão mágico. Julgo ouvi-la dizer:
— Desculpe lp! À saúde e felicidade de ambos.
— Aceito o brinde Simone, se me olhar de novo assim, como o fez agora.
O Querido Gato, enroscado na sua almofadinha de cerimónia, espreitava de soslaio.
lp

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Indiquei-lhe a sala. Ela entrou para a maior divisão desta casa. Tem uma varanda e duas janelas para a rua. Entrou e disse:
— Acolhedora, lp. Bem bonita. Falta-lhe apenas um toque feminino! Arranje-me uma jarra para os cravos.
Aquele à-vontade, como visita de casa sem cerimónia, deixou-me embevecido. Era exactamente assim que eu sonhava como se pode e deve construir uma harmonia.
— A senhora manda — e desandei pelo corredor.
Naquele momento entrou na sala o Querido Gato, vaidoso pela beleza que ostentava depois do SPA da tarde.
— Cá está ele! — disse Simone.
E desde logo se baixou para uma festa. Ele que não amuasse, hem!; também lhe tinha trazido um presentinho.
Tapava a mesa de jantar uma toalha dum tecido de chiffon vermelho transparente sobre sombra branca, dando-lhe assim um tom rosa; pratos da série "cavalinhos" da antiga Fábrica de Sacavém. Copos vermelhos. Talheres. Guardanapos brancos. Um candelabro de casquinha com a velha vela vermelha ainda apagada.
lp

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

E com ela entrou aquele jovem sorriso, aquela flor dum jardim primaveril, aquela face que se me estendeu para um beijo; um ramo de cravos vermelhos, uma garrafa de vinho tinto e desculpas pelo atraso.
— É capaz de me explicar como se entra nesta casa? — foram as suas primeiras palavras.
Simone bem tinha batido com a mãozinha de ferro, batente enferrujado que este prédio ainda conserva na porta da rua. Expliquei-lhe: uma repenicada chama a atenção da vizinha de baixo; uma batidela para o meu andar, uma batidela/repenicada para o lado direito, duas batidelas para o 2º esquerdo e, por fim, duas batidelas/repenicada para o 2º direito.
— Mas o que posso entender por "repenicada"?…
— Lembre-se das pancadas de Molière. É semelhante. Trata-se duma convenção em prédios antigos — expliquei — Quem lhe abriu a porta, Simone?
— Uma senhora com um garoto que se lhe agarrava às saias. O miúdo quis saber quem eu procurava…
Nélinho, deduzi de imediato. Estafermo do puto. Está sempre de olho alerta.
lp

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Os artistas que vieram a ser conhecidos como "impressionistas" interrogavam-se: "Que cor é esta?" Pergunto-me eu muitas vezes porque sei, como eles sabiam, que a cor muda de segundo a segundo. Mas a cor, neste quadro que componho, em nada tem a ver com uma paleta, pincéis, tela e cavalete. Tem a ver com a fraca gama policroma da minha vida.
Com a ineficácia dum artista principiante na criação de arte, concluí, desde o "sim" de Simone, que a cor preta também tem luz; vejo-a e sinto-a quando olho para a negrura do pelo do meu gato.
Passavam 10 minutos das 20 horas quando Ela me bateu à porta.
lp

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Depois do rol feito e revisto, mãos à obra.
Com a casa não me tinha que preocupar; a mulher-a-dias vem por aqui todas as sextas-feiras e dá uma volta com o ruidoso aspirador, limpa o pó e ainda lava os vidros quando lhe sobra tempo.
As minhas principais tarefas estavam planeadas; tratar do Querido Gato (corte de unhas, higiene dentária, lavagem, secagem, penteadela), retirar de imediato do congelador um lombinho de porco (uma especialidade que me sai sempre muito bem), compor a mesa com a velha vela encarnada ainda por estrear, e aguardar pelas oito da noite.
Na singeleza que norteia o meu comportamento, não deveria haver lugar para o imprevisto. Mas o imprevisto acontece-me sempre, porque sempre por ele espero. Questão de hábito.
lp

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Por fim Simone disse:
— O seu Querido Gato não está doente, pois não?
Deixou-me entre a espada e a parede. Era uma pergunta subtil que necessitava duma resposta semelhante. Avancei.
— Não a convido como enfermeira. Convido-a como amiga.
Mais um silêncio que me pareceu uma eternidade.
— Às 8?
— Sim, 8! Se quiser vir mais cedo, venha. É consigo, Simone.
— Até logo, então — e desligou.
Uma enorme felicidade rodeou-me. Agarrei no gato, abracei-o como quem abraça um amigo de longa data, dei-lhe biscoitos. Foi ele, aquele jovem animal perdido ou achado no bairro, que me abriu as portas a outra forma de vida; abandonar esta de estar só e ouvir um outro coração, uma voz de mulher bonita, inteligente, morena, de cabelo negro, penteado revolto, atraente, tantos entes que não tenho espaço para os encaixar aqui.
Calma lp. São 3 da tarde.
Vamos planear o encontro.
lp
Mesmo à saída esbarrei com um terrível "dragão", e um "Homem-Aranha".
O meu gato eriçou o pelo e os miúdos gargalharam.
Subi a calçada e entrei em casa não sem antes ter ouvido a costumada sequência; fim-de-semana, Nélinho na avó, maroteiras, sopapos, choros.
Bem sei que estamos no Carnaval mas o puto já tinha idade para ter juízo.
Voltando à imagem na toalha de papel: gostava de aprofundar porque me lembrei de Simone uma vez que a tal Samotrácia não tem cabeça e a minha amiga não tem asas.
Quero fazer-lhe uma proposta para jantar, mas aqui, onde moro. Depois do esplendor no Conventual, posso dar-lhe a conhecer a intimidade desta casa que em nada me envergonha.
Liguei-lhe:
— O que se passa lp?
— Tenho um convite extensivo a duas pessoas. Espero-a às 8 da noite para jantar, aqui em casa.
— E a outra pessoa, quem é? — perguntou.
— Eu!
Fez-se um eterno silêncio entre os dois.
Olhei para a perfeitíssima perspectiva do Aqueduto das Águas Livres…
lp

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

No momento em que saboreava a "Baba de Camelo" a clientela levantou-se como se tivesse sentido um impulso vertical de baixo para cima e gritou em uníssono: Gooooloooo!
Viam uma partida de hóquei no plasma do Braz.
Mas o meu Querido Gato, não esperando tal impulso, apanhou um susto tremendo e deu um pulo como se quisesse ir ao encontro dum asteróide. A trela, presa à cadeira, suspendeu a sua entrada em órbita, e o bicho acabou por cair desamparado mesmo aos pés do novo empregado (semana sim, semana não, o Braz renova o pessoal) no momento em que me servia a bica. 
Claro está que o café se entornou mas, olhando para a toalha, foi-me dado observar que a cor azul escura do carrascão e o castanho negro do café, desenhavam no papel branco um bonito corpo de mulher com azas, qual Vitória de Samotrácia e, nesse instante mágico, lembrei-me de Simone.
Agarrei no Querido Gato e saí.
lp

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Pela primeira vez levei o Querido Gato ao Braz.
Entrei no restaurante como se nada fosse, ocupei a minha mesa e pedi uma toalha de papel para sentar o gato na cadeira vaga. A clientela do costume não deixou de me cumprimentar e sorrir, pois não é chique levar-se um gato de trela a um restaurante popular de Campolide, como refinado cão de fila, sentá-lo à mesa, pedir um prato, abrir a latinha Gourmet Gold de "Frango do Campo" e servir o bicho. Mas todas as gracinhas que ouvi tinham uma chancela de carinho e admiração.
O "arroz de pato" estava como sempre; muito tostado por cima e quase cru por baixo. Depois da experiência no Conventual fiquei um cliente exigente; fui peremptório com o Braz; eu tinha o direito de exigir uma toalha de papel limpa e não a que o comensal anterior tinha deixado com brutas nódoas de vinho tinto. Além disso o arroz não tinha pato…
lp
A partir de hoje publicaremos aqui com regularidade as Crónicas do senhor lp, dando continuidade ao que já tem sido editado nas caixas de comentários pelo seu autor.
Será assim possível a todos acompanhar os episódios do Querido Gato e do seu dono.